Estágios do Conhecimento e do Uso de Cenários:

Um Estudo em Organizações Públicas e Privadas do Setor de Turismo em Natal/RN

Autores:

Carla Maria Rodrigues Muniz – Prof.(a) e Mestranda de Administração - UFRN

Benny Kramer Costa – Professor e Pós-doutourando em Administração – UFRN/ FEA-USP

João Maurício Gama Boaventura- Professor e Doutor em Administração – UNICID-SP

Mauro Lemuel Alexandre - Professor e Doutor em Engenharia da Produção – UFRN/ COPPEAD_RJ

RESUMO

Este estudo tem como objetivo identificar o nível de conhecimento e de uso da metodologia de cenários em algumas organizações públicas e privadas do setor de turismo em Natal-RN. São apresentados os fundamentos teóricos da metodologia de cenários e um retrato do estado da arte no campo de estudos do futuro em turismo. A pesquisa desenvolvida, de natureza exploratória e qualitativa, optou pelo método de estudo de casos múltiplos. Os resultados do estudo de casos apontaram um baixo nível tanto de conhecimento quanto de uso da metodologia de cenários nas organizações investigadas. Concluiu-se que, apesar do baixo conhecimento de cenários, os profissionais das organizações pesquisadas são simpatizantes do método e reconhecem sua importância, outrossim, a forma frágil como o ambiente é avaliado por tais organizações recomenda uma ação corretiva quanto a esta postura.

Palavras-chave: Estágios do Conhecimento; Estudo em Organizações Públicas e Privadas; Setor de Turismo em Natal/RN.

1 INTRODUÇÃO

A instabilidade ambiental presente na vida das organizações públicas e privadas nas últimas décadas tem evidenciado a importância da administração estratégica na busca de sua sobrevivência. Este fato tem despertado as empresas para a utilização de técnicas avançadas de prospecção para a realização dos objetivos organizacionais como o uso de cenários com a finalidade de prover tais organizações de mais informações sobre o futuro.

Observa-se que as constantes mudanças existentes no mundo globalizado, não permitem a utilização de meras extrapolações para antever estratégias futuras. Narayanan e Fahey (1999) enfatizam que a necessidade do prognóstico consiste em desenvolver considerações plausíveis sobre o escopo, direção, velocidade e intensidade das mudanças macroambientais.

Alguns setores, a exemplo do de turismo, estão sujeitos a transformações do ambiente mais rápidas e profundas do que outros. Corrobora esta assertiva o fato da competição nesta atividade dar-se não só no nível local, como no regional e global. Ademais, as forças dentro do setor se alternam entre competição e cooperação.

Para se ter uma idéia da importância deste setor, basta observar os números a respeito da atividade em Natal. A Secretaria Estadual de turismo, tendo como base pesquisa realizada em 2002, constatou que do total de 480.155 turistas que visitaram o Rio Grande do Norte, 455.355 vieram através de vôos domésticos e 24.355 de vôos internacionais. A mesma fonte informou que 75% da receita turística bruta obtida, neste ano, com a vinda destes turistas foram absorvidas pela a Grande Natal, gerando 257.688 postos de trabalho diretos e indiretos. Percebe-se que a atividade turística é fundamental tanto para o desenvolvimento da cidade como do Estado.

Os objetivos deste estudo são identificar o nível de conhecimento e uso da metodologia de cenários em algumas organizações públicas e privadas do setor de turismo em Natal-RN.

O trabalho está estruturado em sessões. Após a introdução apresentam-se os aspectos conceituais em cenários, os estudos do futuro em turismo, procedimentos metodológicos, análise dos resultados , conclusões e considerações, e referências.

2 ASPECTOS CONCEITUAIS EM CENÁRIOS

Um estudo feito pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT, 2003) chamado Prospecção Tecnológica: metodologias e experiências nacionais e internacionais enfatiza que a primeira questão que surge quando se discute cenários, ou prospecção, é a terminologia. Dependendo do país ou da língua onde se concentre o estudo, o mesmo tema pode ter diferentes termos. O termo cenário é rico de significados na literatura, variando de sentido em função do campo de especialização, assumindo conotações desde montagens de ambientes para filmagens, apresentações teatrais até combinações estatísticas sobre as tendências marcroeconômicas entre outras.

Em termos conceituais, no campo de Estudo do Futuro, onde se insere esta pesquisa, cenário é “o conjunto formado pela descrição de uma situação futura juntamente com a evolução dos eventos que permitirá passar da situação de origem para a situação futura de forma coerente.” (GODET,1993, p.70). Este autor explica ainda que o futuro é múltiplo e diversos futuros potenciais são possíveis; a descrição de um potencial futuro e das progressões necessárias para atingi-lo irão constituir um cenário, possivelmente por essa razão, exista uma diversidade de resultados do processo de planejamento por cenários.

Para Schwartz (2000), cenário é uma ferramenta para ordenar percepções sobre ambientes futuros, sobre os quais as decisões atuais se basearão, ou seja, são “histórias de futuro”, histórias que podem ajudar a reconhecer os aspectos de mudança do ambiente presente e nos auxiliar a se adaptar a eles. Ressalta que o principal objetivo deste processo é estabelecer estratégias que sejam compatíveis com todos os futuros possíveis; e, independente de qual futuro aconteça, deve-se estar preparado para enfrentá-lo.

Os cenários propiciam um ambiente que enriquece o debate sobre questões críticas relacionadas com o futuro da empresa e possibilita que os seus gestores tomem decisões de risco com mais transparência. Promovem o desenvolvimento e a análise de novas opções de futuro frente às mudanças no ambiente externo, e propiciam, por fim, uma visão de futuro que pode ser compartilhada por todos que façam parte da empresa. (MARCIAL; GRUMBACH, 2002).

Segundo Boaventura (2003, p.32), alguns autores entendem que cenários de primeira geração são aqueles que ajudam os gestores a compreender os possíveis desdobramentos do ambiente econômico e suas influências no mundo dos negócios; já os cenários de segunda geração passaram a ser destinados à tomada de decisão. Georgantzas e Acar (1995, p. 29) enfatizam que os de primeira serviram de alimentação para os de segunda, que também ficaram sendo mais conhecidos como cenários estratégicos. O processo de planejamento por cenários pode ser visualizado na figura 1.

WACK (1985, p. 78) denominou cenários de primeira geração, aqueles que tinham o propósito de serem exploratórios, também denominados ambientais ou industriais, voltados para o entendimento das variáveis ambientais, apresentando as incertezas básicas, e sem a capacidade de basear-se em julgamentos para tomada de decisão. Este autor explica ainda que os cenários de segunda geração são destinados à tomada de decisão, sendo portanto cenários estratégicos.

Na visão de Marcial e Grumbach (2002) existe um conjunto de técnicas que ajudam na construção de cenários prospectivos, as quais podem ser divididas em três grupos: técnicas de ajuda à criatividade; técnicas de avaliação; e, técnicas de análise multicritérios. Partem da premissa de que o ser humano “nasce com potencial criativo”, cabendo, portanto, solucionar a questão de como fazê-lo liberar sua criatividade para se adaptar com rapidez às transformações ambientais. Deste modo, técnicas como: brainstorming, sinéctica, e análise morfológica constituem-se de formulações adequadas a este propósito.

Diversas são as metodologias que podem ser utilizadas, de forma combinada ou isolada, na elaboração de cenários, sendo possível ainda elaborá-los através de uma série de modelos conforme seja a sua lógica interna. Como esta também se constitui uma razão de classificação dos métodos para a construção de cenários, estes foram classificados em três categorias: Lógica Intuitiva (Intuitive Logics), Análise do Impacto Cruzado (Cross-impact Analysis) e Análise do Impacto das Tendências (Trend-impact Analysis), como mostram Huss e Honton (1987).

A Lógica Intuitiva: basicamente procura mudar o processo mental dos gestores para que estes consigam tanto antecipar o futuro quanto preparar a organização para o amanhã, o que é feito através da criação de um conjunto de histórias coerentes e realistas sobre o futuro, que têm como finalidade testar os planos e os projetos de negócios, estimulando o debate coletivo ou a convergência de opiniões. Esta abordagem pressupõe que o processo decisório na empresa seja baseado em um conjunto complexo de relações entre fatores econômicos, tecnológicos, sociais e políticos, sendo a compreensão destes fatores essencial também para formulação das estratégias organizacionais. Seu ponto forte é a possibilidade de desenvolver cenários flexíveis e consistentes sob uma perspectiva intuitiva, dispensando modelos matemáticos de difícil adaptação para determinados tipos de empresa (BONTEMPO, 2000). WILSON (1998, p.81) acrescenta que é um método intuitivo na medida em que estimula a intuição dos gestores a respeito das incertezas e possibilidades futuras, mesmo que também seja lógico, formal e disciplinado no uso da informação, análise e estruturação das tarefas.

A Análise de Impacto Cruzado, por sua vez, é um método desenvolvido para suprir a deficiência de diversos métodos de previsão, como o Delphi, Análise Morfológica e Brainstorming, que não consideram relevantes as relações existentes entre as diversas variáveis em estudo, projetando-as de forma isolada. Explicam Ringland (1998) e Marcial e Grumbach (2002), que este é um método para sistemas complexos, visto se concentrar em analisar como as forças influenciam uma organização, sejam elas externas ou internas, e como podem interagir para produzir efeitos maiores que a soma das partes, ou alavancar o efeito de uma força em função de sua realimentação. Este método tem sido utilizado com sucesso onde forças dominantes podem ser identificadas e o modelo pode ser usado para aumentar o entendimento dos gerentes sobre a importância relativa de diversos fatores, através do uso de um modelo matemático que apresenta como resultado final um cenário estático, exigindo do administrador a capacidade de imaginar um caminho entre o cenário projetado e o estado atual da empresa.

A Análise de Impacto de Tendências, por fim, enfoca o efeito de determinados eventos nas tendências das variáveis analisadas em um dado período de tempo, conforme explica Bontempo (2000). Ao contrário da lógica intuitiva que procura perturbações e rupturas nas tendências, este método procura capturar as tendências, extrapolá-las e verificar os efeitos de certos eventos relevantes na sua evolução. Segundo a autora, esta abordagem une métodos tradicionais de previsão como análises de séries de tempo e econometria com fatores qualitativos, forçando o usuário a identificar explicitamente os eventos que influenciam a variável analisada e avaliar as probabilidades de sua ocorrência e de seus impactos, mas o método não analisa as influências entre variáveis. Ringland (1998, p. 26) esclarece que este método, utilizado pelo Futures Group, orientou-se pelos efeitos das tendências; cujo trabalho de isolá-las pode ser semelhante ao usado no que é mais normalmente conhecido como planejamento por cenários, embora o pressuposto básico no planejamento por cenários seja procurar o inesperado, aquilo que pode contrariar as tendências.

Diversos aspectos devem ser considerados no processo de desenvolvimento de cenários, como apontado por Ringland (1998), com o objetivo de melhorar sua eficiência, ou seja: deve-se dedicar tempo suficiente na elaboração das corretas questões orientadoras dos cenários; o grupo precisa desenvolver um trabalho disciplinado, porém, sem impedir que todos exponham seus pontos de vista; o grupo precisa ser heterogêneo, com interesses e conhecimentos distintos, para que a troca de conhecimento seja inovadora, o que não aconteceria, se provavelmente estivessem restritos aos especialistas do setor. Apesar da diversidade, deve-se buscar uma linguagem comum; os cenários precisam ser relevantes para o negócio para poder convencer eventuais gerentes mais céticos do quanto eles podem ajudar no processo de tomada de decisão; os nomes usados para especificarem os diversos cenários devem ter relação com o tipo de cenário apresentado, de modo a facilitar o seu entendimento; e o desenvolvimento de um roteiro que explique o que é cenário para que não seja confundido com as previsões.

 3 OS ESTUDOS DO FUTURO EM TURISMO

No contexto de turismo internacional, registram-se poucas obras sobre estudos do futuro. Após pesquisa efetuada nos periódicos da CAPES, encontrou-se os trabalhos dos seguintes autores: Schwaninger (2004), Van Doorn (2004), Liu (2004), Weaver (2004), Prideaux et al. (2004) e Barbel e Gunther (2004).

Um estudo por Schwaninger (2004), referente a cenários para 2000-2010 em turismo e lazer, aponta prováveis tendências quanto ao uso do tempo livre e o turismo num período de 10 anos com relação aos países industrializados na Europa. O objetivo deste estudo foi auxiliar os planejadores que estavam preocupados com o tempo livre e o turismo a chegarem a um acordo sobre o que eles deveriam fazer, e não somente descrever as condições futuras. Assim, este estudo sugere examinar qualquer tendência importante que possa se destacar neste período, de modo a responder a seguinte questão: Quais decisões devem ser tomadas pelas autoridades governamentais, comunidade e empresas que estão preocupadas em se ajustar no tempo adequado a estas tendências? Com base neste trabalho, o autor enfatiza que os aspectos econômicos, tecnológicos, sócio-culturais, ecológicos e políticos interferem no funcionamento do setor de turismo como um todo e por esta razão devem ser continuamente monitorados para que se possa antever o que pode acontecer. Para o autor, os desafios mais importantes a serem enfrentados pelos responsáveis pelo planejamento do lazer, pelo setor de turismo e por aqueles setores afetados por ele são: fazer um planejamento sistemático e integrado, pensar estrategicamente em longo prazo, e desenvolver uma ação consistente.

A necessidade de se fazer planejamento em longo prazo é também reforçada por Van Doorn (2004), no entanto, ele ressalta que é mais comum encontrar no turismo, empresas que o façam em curto prazo. Exemplifica que, para se planejar sobre os investimentos necessários ao desenvolvimento do setor, é preciso fazer projeções em longo prazo, que considerem um período entre cinco a vinte e cinco anos. Este autor ainda esclarece que é raro encontrar na literatura sobre o turismo referências a respeito do conceito de cenários, sendo mais fácil, encontrá-lo na literatura geral. O autor cita as duas formas nas quais o uso de cenários tem sido predominante. A primeira e mais comum é o uso de cenários quando referências são feitas a uma descrição de variáveis relacionadas ao desenvolvimento setorial, como por exemplo: cenários de energia do Instituto Internacional para Sistemas de Análise Aplicada, no qual a taxa de variação dos cenários é determinada pela energia mundial consumida. A segunda maneira na qual os cenários são usados é menos comum, porém, na opinião do autor é a mais importante, é quando eles fornecem alternativas para o desenvolvimento social.

Observa-se que no turismo pouco se presta atenção aos efeitos causados tanto pelos eventos inesperados como pelas descontinuidades das tendências. O primeiro caso pôde ser observado recentemente, quando ninguém se antecipou aos efeitos que a ação terrorista traria para o setor turístico e, assim, no momento em que os USA sofreram o atentado de 11 de setembro, em 2001, o turismo do mundo todo ficou abalado. Até hoje, os fluxos turísticos ainda não voltaram aos níveis que tinham anteriormente. Pela observação deste fato, percebe-se que, de maneira geral, não há um preparo prévio das organizações para lidar com as incertezas. (VAN DOORN, 2004).

Liu (2004) apresenta um estudo desenvolvido no Hawai que utilizou a técnica de previsão Delphi para prever o turismo no Hawai no ano de 2000, especialmente em Oahu. Neste caso, os especialistas locais e agentes de viagens foram perguntados sobre a chegada de visitantes e a porcentagem de vôos domésticos no Hawai em termos de mercado; a razão entre visitantes e residentes; as acomodações máximas de visitantes; as taxas de crescimentos desejáveis; e os prováveis cenários para o turismo em Oahu. A autora ressalta que os resultados obtidos com este estudo mostram que as previsões sobre o turismo do Hawai para o ano 2000, feitas tanto por especialistas locais como de outras localidades, são geralmente consistentes com as projeções do Estado. Isto sugere que, até certo ponto, eles foram influenciados pelas estimativas estatais. Apesar disso, este fato é visto pela autora como uma vantagem em uma pesquisa desta natureza devido à combinação de técnicas quantitativas com qualitativas ser considerada ideal na arte da previsão.

Barbel e Gunther (2004) avaliaram um estudo realizado na Dinamarca, em 1999, utilizando um método transdisciplinar que combinava técnica de cenário, visualização foto realista e a participação dos stakeholders com o objetivo de identificar o real interesse em uma determinada zona rural em Kravlund. Os autores explicam que os cenários e as fotos realistas visualizadas foram usados em um encontro entre os stakeholders e os representantes do governo, para discutir as opções para uso futuro de uma área rural no sul da Dinamarca. A discussão concentrou-se nos seus quatro usos possíveis: 1) Transformar-se em uma fazenda industrial; (2) Voltar-se para a recreação e turismo; (3) Ser preservada, e (4) ser empregada para uma futura expansão residencial.

Outro estudo realizado recentemente foi desenvolvido por Prideaux et al. (2004) e procurava explorar os limites das tendências do turismo formal através dos métodos de previsão usados em complexas situações de crise, um estudo de caso feito na Indonésia. Eles explicam que o fluxo turístico internacional está sujeito a interrupção devido a uma série de eventos que podem ocorrer tanto na origem como no destino. As conseqüências podem ser insignificantes e de curto prazo ou ter impactos catastróficos nos sistemas industriais existentes. Grandes interrupções ou choques afetam tanto os países que enviam como os que recebem os turistas, afetam a ação dos setores públicos e privados e podem interromper ou modificar os planos de viagem dos viajantes. Os autores citam os exemplos de grandes interrupções que afetaram o fluxo turístico internacional como a guerra do Golfo, a crise financeira da Ásia, o atentado terrorista de 11 de setembro nos USA e, mais recentemente, a guerra no Iraque.

O World Travel & Tourism Council (2004) realizou no ano passado um estudo chamado War Scenario avaliando os impactos da guerra no Iraque no turismo do Brasil e concluiu que, enquanto a previsão era de que o fluxo turístico decrescesse 0,5% em virtude da guerra, na verdade ele decresceu 2% em relação aos resultados obtidos em 2002, devido ao prolongado conflito militar. Outras estimativas foram feitas pelo estudo avaliando os impactos deste evento na indústria do turismo no Brasil, o que comprova o quanto à conjuntura mundial afeta o turismo na maioria dos países.

Para Haimers et al. (2002 apud PRIDEAUX et al., 2004), está claro que o primeiro e mais importante passo da análise quantitativa de risco é a identificação de um grupo de cenários de risco. Se o número deste tipo de cenários for grande, então o segundo passo será filtrar e classificar os cenários de acordo com a sua importância. A classificação do risco, onde o nível de probabilidade de ocorrência e o grau de impacto podem ser estabelecidos, fornecem informações que podem subsidiar previsões futuras. Prideaux et al. (2004) explicam que a relação entre este fato e as previsões sobre as tendências futuras do crescimento turismo está em poder produzir uma confiabilidade maior nas previsões, uma vez que passam a considerar um número de variáveis bem maior, possibilitando que as empresas se preparem para um número maior de hipóteses do que pode acontecer no futuro.

Henderson (1999 apud PRIDEAUX et al., 2004) comparou o impacto causado com a crise na Indonésia e Tailândia e comprovou que o turismo é vulnerável às forças externas tais como condições econômicas, e sugeriu que há uma necessidade de uma estratégia de resposta para lidar com o inesperado. A maneira como os governos respondem aos choques, afetam a forma como a indústria do turismo se recupera. Assim, os autores lamentam a pouca informação disponível na literatura do turismo que auxilie os governantes a se prepararem para o inesperado e a lidar com os seus impactos. Além disso, o limitado uso de planejamento por cenários faz com que os governos utilizem previsões para desenvolver orçamentos, políticas e planos por desconhecerem outros métodos para se estudar o futuro.

 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Este trabalho, de natureza exploratória e qualitativa, adotou o método de estudo de casos múltiplos, em função do foco da pesquisa ser um setor específico da atividade econômica, o turismo. A pesquisa se enquadra como um estudo de caso que, conforme Yin (2001), corresponde a uma estratégia de pesquisa abrangente e empírica que investiga um fenômeno contemporâneo, dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos.

O universo de investigação deste estudo correspondeu ao setor de turismo em Natal. A definição da amostra foi intencional, tendo sido selecionados quatro organizações significativas do setor. As organizações escolhidas foram: a Secretaria Estadual de Turismo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Associação dos Meios de Hospedagem e Turismo - AMHT, e o Hotel Ocean Palace. A escolha da amostra deu-se em função da importância daquelas organizações para o turismo local e pelo acesso a profissionais envolvidos com as questões estratégicas organizacionais.

A coleta de dados primários foi através da realização de entrevistas, semi-estruturadas e não-disfarçadas, aplicadas pessoalmente, tendo o roteiro de perguntas como instrumento balizador do processo. As entrevistas foram precedidas pela solicitação de agendamento de reunião com os responsáveis pelas questões estratégicas, via e-mail ou por meio de contato telefônico. Utilizou-se, conjuntamente, a observação direta como forma de obter informações mais detalhadas sobre as impressões que o entrevistado tem tido sobre o que está sendo pesquisado.

A coleta de dados secundários foi realizada através de documentos cedidos pelas organizações pesquisadas que apresentaram dados referentes ao crescimento da atividade, planejamentos estratégicos elaborados e o material de cursos realizados.

Este tipo de estudo, de acordo com Yin (2001), apresenta as seguintes vantagens:

  1) O pesquisador necessita somente examinar as respostas de uma mesma questão ou das questões existentes, dentro de cada caso, para iniciar a elaboração de comparações cruzadas dos casos, o que facilita o desenvolvimento da análise de resultados para interesses específicos;

  2) Não são vistos separadamente os capítulos e sessões destinadas a cada tipo individualmente, e sim, sintetizadas as informações de todos os respondentes que, por sua vez, são organizadas em torno de cada tópico ou módulo de pesquisa.

Estes procedimentos permitem aprofundar o conhecimento com a realização de um estudo de casos múltiplos, que teve como objeto à investigação de 4 casos agrupados em 4 elementos: uma secretaria de governo, uma associação patronal ligada ao turismo, uma empresa hoteleira e uma instituição de ensino superior, que tinha em seu arcabouço linhas de pesquisas na área do turismo.

5 ANÁLISE DOS RESULTADOS

A partir do estudo de campo realizado com executivos e diretores de estabelecimentos do setor do turismo, pôde-se verificar que os responsáveis pelas decisões de natureza estratégica demonstram-se abertos a discutir novas idéias além de dispostos a melhorar os seus processos atuais. Tanto é que se colocaram à disposição para responder os questionamentos com facilidade, além de solicitarem mais informações sobre a pesquisa que está sendo realizada e ainda, pediram para ser informados sobre os seus resultados. Por outro lado, nota-se que eles são um pouco céticos quanto ao poder que cada um tem de interferir no curso dos acontecimentos presentes visando à construção de um futuro desejável tanto para sua atividade como para o desenvolvimento do segmento como um todo. Eles preocupam-se mais em manter o que já foi conquistado e a pensar no que pode ser feito, na medida em que as oportunidades e/ou ameaças se façam presentes. Parece ser difícil visualizar o que acontecerá no futuro do segmento e de suas organizações, porque a análise do ambiente é feita de maneira restrita aos acontecimentos passados e atuais. Mesmo assim, reconhecem que tudo pode acontecer se não forem tomadas providências agora, e que o desenvolvimento do turismo depende de um planejamento eficaz na construção deste futuro.

Com relação ao conhecimento do que sejam cenários, constatou-se que 3 dos 4 dos entrevistados apresentaram uma visão rudimentar do que seja cenário. No entendimento deles, cenário tem a ver com análise da conjuntura atual sem necessariamente estar ligada as escolhas estratégicas e nem a ligação dessas escolhas com a construção de um futuro desejado. Somente um deles, conceituou cenários como sendo uma visão do futuro. Ou seja, não demonstraram domínio suficiente sobre o conceito de cenários, embora tenham uma idéia aproximada. Nenhum mencionou que se devem observar os fatos portadores de futuro como forma de antever qual futuro está começando a ser germinado hoje, e não foram claros em declarar que percebem que o futuro é múltiplo e sujeito a ação do presente para seu condicionamento. Para eles, o futuro parece ser continuação do presente e que não existem fatores de rupturas das tendências atuais. Observou-se ainda que nenhum dos entrevistados ressaltou a importância que a incerteza tem neste contexto, uma vez que com ela a atividade de planejamento se torna muito mais complexa.

Quanto ao uso de cenários, metade afirma usar, mas só intuitivamente. Os que dizem não usar, atribuíram ao fato de não acreditarem no conhecimento formal e também ao fato de considerarem complexo o uso de uma ferramenta como esta, preferindo adotar a forma intuitiva de analisar os fatores ambientais relevantes, utilizando uma rede de relacionamentos estratégicos e a imprensa como forma de manter-se informado sobre o que está acontecendo no mundo. Sendo esta a forma que se subsidiam para a tomada de decisão sobre o que deve ser feito ou não em suas organizações.

Quanto ao conhecimento da utilização de cenários por outras organizações do setor, afirmam não ter informações sobre isto, havendo alguma referência ao exemplo da Bahiatur, justificando que eles trabalham antecipando suas ações e que, por isto, estão à frente das demais organizações do setor. Constatou-se que este exemplo pode não ser verídico, pois ele não foi capaz de dizer que ferramenta havia sido utilizada para a construção de cenários na Bahia. Acredita-se que o entrevistado, por ter um conhecimento limitado a respeito, relacionou o fato da Bahia ter o hábito de se preparar para aproveitar as oportunidades antes que elas aconteçam com o uso de cenários. O que não, necessariamente, significa que eles usem. Comparou-se a ação da Bahia com a do Rio Grande do Norte com relação ao turismo de eventos e atribuiu-se ao planejamento e a visão de longo prazo como sendo as principais razões do expressivo desenvolvimento deste nicho de negócios naquele Estado. Isto denota que eles reconhecem que se preparar com antecedência para os desafios futuros é importante e necessário para se destacar na atividade e que se perde tempo aqui por não se ter à visão que os baianos têm. Apenas o método Delphi foi citado por um dos entrevistados como ferramenta para a construção de cenários, não sendo externado nenhum exemplo de sua aplicação. O entrevistado atribuiu ao fato do turismo ser ainda uma área nova de estudos e que não existe muitas informações disponíveis a respeito.

Um entrevistado também afirmou ter participado de curso sobre cenários, promovido pela Embratur, que contou com a participação de técnicos de todas as secretarias estaduais de turismo do Brasil. No entanto, a metodologia foi considerada complexa e que, apesar do treinamento recebido, a técnica ainda não foi utilizada. Ele comentou ainda que somente uma pessoa da área técnica foi treinada, o que provavelmente justifica o fato da não implantação da metodologia, pois os responsáveis pelas decisões estratégicas ficaram fora deste processo. O que confirma a teoria de que é necessário o total comprometimento da liderança da empresa no processo de desenvolvimento de cenários. Pois apenas com a real participação dos executivos no processo, os cenários serão plenamente compreendidos e incorporados ao processo decisório. Talvez devido ao fato da Embratur ter capacitado apenas o corpo técnico das secretarias estaduais de turismo, e não os secretários, isto já tenha, desde o início, comprometido o projeto de ser levado adiante. Percebe-se que houve uma tentativa por parte do Governo Federal, via Embratur, de criar cenários para o setor de turismo e assim alavancar a atividade. Mas, como não foi feito da forma adequada, este esforço não teve resultado.

Diante do exposto, constata-se que existe uma noção do que sejam cenários, sua importância e finalidade, sem que, no entanto, este conhecimento leve a uma mudança efetiva de atitude perante a forma como eles atuam, vêem o futuro e nem como eles se preparam para enfrentar as ameaças ou oportunidades que estão por vir. Observou-se uma forte inclinação para se copiar o que está sendo feito por outras empresas como forma de alavancar o crescimento do setor, mesmo que tenham ressaltado a necessidade de se fazerem adaptações. Nota-se que ainda é sutil a percepção de que é preciso inovar para se estar à frente da concorrência e que o diferencial competitivo duradouro aconteça quando se oferece algum produto ou serviço diferente ao turista. Outro ponto interessante é que eles reconhecem a necessidade da ação conjunta dos stakeholders, para que o setor como um todo possa se desenvolver, apesar de não ter sido percebido que hoje eles atuem desta maneira.

No que diz respeito à importância do uso de cenários no setor de turismo, isso foi reconhecido por todos os entrevistados. Os argumentos citados pelos entrevistados para justificarem sua resposta coincidem com alguns dos motivos que justificam o uso de cenários, como: 1)Obter informações sobre as potencialidades do mercado, a fim de nortear os investimentos futuros; 2) Necessidade da ação conjunta de todos os stakeholders para que o turismo se desenvolva como um todo; 3) O turismo tem crescido de forma desordenada e é necessário organizar este crescimento para que a atividade turística possa se desenvolver de forma sustentável; e, 4) Com cenários, os empresários podem ser flexíveis no estabelecimento de suas estratégias, porque terão conhecimento de que existem outras possibilidades possíveis. Então, mesmo que se prepare para uma, terão a consciência de que existem outras.

Verifica-se, neste momento que, embora o conhecimento sobre o assunto seja limitado, eles percebem intuitivamente as vantagens que a capacidade de se antever o futuro poderia trazer para a atividade e que isto é essencial tanto em nível empresarial como setorial. Um dos entrevistados foi enfático em dizer que o futuro é reflexo do presente, sem despertar para o fato de que isto não significa que o futuro seja continuidade do presente. Isto mostra que, para este entrevistado, o futuro é único e pré-determinado, o que contraria a filosofia de cenários onde o futuro é múltiplo e pode ser bem diferente do presente. Outro caso interessante é que alguns entrevistados comentaram que usar cenários dá agilidade para o atendimento das novas demandas dos turistas porque se saberá, antecipadamente, o que eles poderão querer. Percebe-se que ele vê o uso de cenários como um instrumento competitivo importante e, apesar de tudo isto, eles não externaram a necessidade de se usar uma metodologia específica para isto. A impressão que se tem é que eles acham-se capazes de visualizar o que pode acontecer usando somente a intuição e sua rede de relacionamentos.

Quanto à viabilidade do uso de cenários, todos afirmam ser viável, mas com ressalvas, ou seja, é viável e importante, porém existem diversos fatores que dificultam que este projeto seja posto em prática: 1) Falta de profissionalismo por parte das empresas que fazem o setor; 2) Falta do entendimento de que todos devem participar ativamente do seu desenvolvimento e que isto não é obrigação só do governo e dos hoteleiros, mas de todos; 3) Visão imediatista dos empresários e da classe política; 4) Reconhecer que o planejamento de longo prazo é essencial para a atividade turística; 5) Reconhecer que necessitam ser mais competitivos; e ainda, 6) Reconhecer que se investir na capacitação das pessoas é essencial para o sucesso do setor.

Apesar de reconhecerem que o uso de cenários é importante e viável, eles visualizam uma série de dificuldades a serem vencidas antes que um processo desta natureza se inicie. Como alguns dos problemas citados são de natureza cultural, é difícil ter certeza do quanto é viável o uso da metodologia neste momento.

No que diz respeito ao interesse em implementar cenários, os respondentes afirmaram que possuem, no entanto, não sabem até que ponto as organizações do setor estão dispostas a investir tempo e recursos neste projeto. Segundo um dos entrevistados, para que se consiga ter êxito em uma proposta como esta, deve-se mostrar que se não for feito alguma coisa o fluxo turístico tende a declinar. Na opinião dele, só diante de algo assim, as pessoas se mobilizariam para isto.

Todos os entrevistados afirmam que existem pessoas qualificadas para desenvolver a atividade tanto no governo como na iniciativa privada. Alguns deles ressaltaram que um projeto como este deveria ser desenvolvido por uma consultoria externa devido a sua complexidade. Coincidentemente, este ponto de vista foi colocado pelas pessoas que participaram do curso ministrado pela Embratur e, portanto, têm mais condições de avaliar.

6. CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES

Apesar de haver evidências que os métodos de cenários ainda sejam pouco estudados e empregados no setor de turismo, acredita-se que o uso de tais ferramentas pode auxiliar o processo estratégico das organizações deste ramo de atividade.

Embora os métodos de cenários sejam pouco conhecidos pelas organizações do setor, este estudo mostrou que os profissionais envolvidos nas questões estratégicas das organizações estudadas são simpatizantes do método e acreditam que o mesmo é importante e viável. Isto posto, nota-se que há espaço para o crescimento do conhecimento de cenários em tais organizações, em que pese as dificuldades apontadas à sua implementação.

No presente estudo constatou-se que nenhum das organizações pesquisadas considerava a análise do ambiente em seus vários níveis. Restringiam-se a usar informações sobre o desempenho passado e fazer uma análise superficial sobre o que e como pode afetar os negócios no futuro. Esta atitude de não considerar as incertezas, os sinais de rupturas e principais tendências, pode comprometer os resultados destas organizações e de seu segmento de atividade.

Os objetivos propostos de identificar o nível de conhecimento e uso de métodos de cenários em algumas organizações públicas e privadas do setor de turismo em Natal foram alcançados. Embora a pesquisa, em função do método empregado, não permita uma generalização dos resultados para o setor de turismo nesta localidade, dada a importância regional das organizações estudadas, enseja indícios do que possa ocorrer no setor.

No geral, pode-se afirmar que as organizações e instituições que compõem o setor de turismo em Natal necessitam ser mais informadas sobre as vantagens que o uso de cenários traria para o processo de tomada de decisões. É recomendável que se desperte para o fato que usar somente a intuição e a rede de relacionamentos de forma pontual e assistemática para avaliar as variáveis do macroambiente não é suficiente.

ABSTRACT

This research aims to identify the level of knowledge and the use of methodology of sceneries in some public and private organizations of the tourism sector in Natal. The theoretical fundaments of methodology of sceneries and a portrait of the state of art in the
studies about the future within the perspective of tourism are presented in this work. This research, which has an exploratory and qualitative nature, chose to be developed through the method of the study of multiple cases. The results of the study of cases showed a low level in the knowledge and in the use of methodology of sceneries in the organizations that were studied. It was concluded that, despite of the low level of knowledge of sceneries, the professionals from the investigated organizations tend to agree with the method and to recognize its importance. In addition, the environment is evaluated in a superficial way by such organizations. Thus, we recommend a corrective action related to this
attitude.

Key-words: stages of knowledge, study in public and private organizations, tourism in Natal.

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