Tragédia e sonho Interessante notarmos que é necessário sair de casa e tornar-se estrangeiro para Édipo finalmente descobrir quem ele é. Na tentativa de traçar o próprio destino Édipo descobre: o esforço foi vão. Apesar da determinação e sabedoria de Édipo, a vida traz o acaso (destino) que de uma hora para outra pode desviar seus pés do caminho sem tropeços, sem surpresas. Os pés Quanto ao menino, em seu terceiro dia, O menino de "pés inchados", em busca de respostas que revelassem a sua verdadeira origem, torna-se homem, marido de sua mãe, assassino de seu pai, pai de seus irmãos, e, não suportando a verdade que tanto almejava desvelar, vela o seu olhar: se despede da luz e opta (sem intervenção do destino dos deuses) por cegar seus olhos, como um ato de recusa e de repúdio perante a realidade que o sufoca e o mortifica. Se os seus pés já estavam, desde sempre, marcados pelo destino, suas mãos representavam a liberdade de sua ação ao escolher a escuridão do seu olhar diante de toda a clareza dos fatos. Se Édipo não foi capaz de deter a realização das previsões do oráculo, o mesmo não ocorrerá com Segismundo, o protagonista de La vida es sueño de Pedro Calderón de la Barca (1600 - 1681). Comédia dramática do Século de Ouro, La vida es sueño traz a história do príncipe Segismundo que, desde o seu nascimento, foi confinado numa torre num monte distante do palácio do rei Basílio (seu pai). Tal qual o pai de Édipo, Basílio abandona Segismundo por acreditar no destino de seu filho traçado pelos astros no dia de seu nascimento, causando a morte de sua mãe na hora do parto. A partir de então, a mando do rei, Clotaldo (preceptor de Segismundo) o faz dormir e o leva da torre ao palácio onde o príncipe encontrará seu pai, de modo que, ao despertar do sono e ouvir toda a verdade sobre sua origem, caso o príncipe se revolte contra aqueles que o exilaram durante tanto tempo, seja possível consertar a situação, levando-o de volta à torre da mesma maneira em que chegou (dormindo) para, quando acordar, pensar que tudo não passou de um sonho. Obra formada de três atos ou três jornadas, La vida es sueño apresenta três fases pelas quais passa o príncipe: na torre (onde é prisioneiro), da torre ao palácio (onde é levado dormindo, e ao acordar promete vingança ao pai e a todos que o enganaram, sendo em seguida levado a torre, fazendo-o pensar que tudo o que tinha vivenciado nesse intervalo de tempo não passara de um sonho) e, finalmente no palácio (momento no qual o personagem passa aceitar que a vida é de fato um sonho e trata de alongar ao máximo a duração do seu sonhar, temendo voltar para torre como prisioneiro). Como podemos ver, ambas as obras, Édipo-rei e La vida es sueño põem o leitor diante do dilema entre predestinação e livre arbítrio. Seria o destino um caminho já traçado pelos deuses, mutilando as paixões e a liberdade do homem? E quanto ao sonho e a esperança individual de cada um? O sonho é a cura do homem diante do medo da morte (sono eterno). Tecemos Assim sendo, Segismundo opta por "sonhar" como sendo esta a única alternativa para se desvencilhar da realidade que o encurrala de todas as maneiras. O sonho, portanto, pode ser visto nesta obra de Calderón como uma opção existencial, na verdade, única alternativa que desvia o homem da tragédia da vida, contra a qual lutamos diariamente. _____________________________________________________________ |