Tragédia e sonho
(o rei e o sonhador)

Rosanne Bezerra de Araújo[1]


Tragédia grega que põe no palco da escritura a tragédia humana, Édipo-rei de Sófocles (apr. 496-406 A.C.) é o exemplo do quão incertas podem se tornar as veredas por onde é traçado o destino dos homens. Assim como Édipo, Prometeu, Segismundo e outros personagens da literatura, o ser humano é composto de limitações e incertezas. O homem vive e experimenta o mundo aos poucos, como quem tateia no escuro tentando se familiarizar com o que está à sua volta, desconhecendo o porvir e sem ter acesso aos restos do seu passado. Em busca de saber quem verdadeiramente é, sofre com a ausência de respostas em meio a uma realidade que muda a todo instante, pois permanece velada pelo mundo das aparências. Diferente dos deuses, o homem possui somente o presente, e, ainda assim, parece não ter o total domínio
dos seus pés ao passar do presente para o futuro. Um exemplo disto é o caminhar de Édipo. Ao saber através de um oráculo, que o seu destino era condenado a matar o pai e desposar a mãe, Édipo foge de sua terra, deixando o passado e a família para trás, a fim de evitar a realização da adivinhação do oráculo. Porém, desconhecendo que aqueles não eram seus
verdadeiros pais, Édipo, sem saber, caminha em direção aos seus pais verdadeiros, num reino distante, onde chega como um estrangeiro.

Interessante notarmos que é necessário sair de casa e tornar-se estrangeiro para Édipo finalmente descobrir quem ele é. Na tentativa de traçar o próprio destino Édipo descobre: o esforço foi vão. Apesar da determinação e sabedoria de Édipo, a vida traz o acaso (destino) que de uma hora para outra pode desviar seus pés do caminho sem tropeços, sem surpresas. Os pés
de Édipo simbolizam essa fraqueza do caminheiro pela vida, como se o destino (ou a força dos deuses) insistisse em amarrar os pés do rei tebano, de maneira que, para onde quer que ele fosse, carregaria o fado determinado desde o seu nascimento, como vemos na fala de Jocasta:

Quanto ao menino, em seu terceiro dia,
Laio amarrou-lhe os pés pelos atelhos,
mandou alguém lançá-lo a um monte virgem.

O menino de "pés inchados", em busca de respostas que revelassem a sua verdadeira origem, torna-se homem, marido de sua mãe, assassino de seu pai, pai de seus irmãos, e, não suportando a verdade que tanto almejava desvelar, vela o seu olhar: se despede da luz e opta (sem intervenção do destino dos deuses) por cegar seus olhos, como um ato de recusa e de repúdio perante a realidade que o sufoca e o mortifica. Se os seus pés já estavam, desde sempre, marcados pelo destino, suas mãos representavam a liberdade de sua ação ao escolher a escuridão do seu olhar diante de toda a clareza dos fatos.

Se Édipo não foi capaz de deter a realização das previsões do oráculo, o mesmo não ocorrerá com Segismundo, o protagonista de La vida es sueño de Pedro Calderón de la Barca (1600 - 1681). Comédia dramática do Século de Ouro, La vida es sueño traz a história do príncipe Segismundo que, desde o seu nascimento, foi confinado numa torre num monte distante do palácio do rei Basílio (seu pai). Tal qual o pai de Édipo, Basílio abandona Segismundo por acreditar no destino de seu filho traçado pelos astros no dia de seu nascimento, causando a morte de sua mãe na hora do parto. A partir de então, a mando do rei, Clotaldo (preceptor de Segismundo) o faz dormir e o leva da torre ao palácio onde o príncipe encontrará seu pai, de modo que, ao despertar do sono e ouvir toda a verdade sobre sua origem, caso o príncipe se revolte contra aqueles que o exilaram durante tanto tempo, seja possível consertar a situação, levando-o de volta à torre da mesma maneira em que chegou (dormindo) para, quando acordar, pensar que tudo não passou de um sonho. Obra formada de três atos ou três jornadas, La vida es sueño apresenta três fases pelas quais passa o príncipe: na torre (onde é prisioneiro), da torre ao palácio (onde é levado dormindo, e ao acordar promete vingança ao pai e a todos que o enganaram, sendo em seguida levado a torre, fazendo-o pensar que tudo o que tinha vivenciado nesse intervalo de tempo não passara de um sonho) e, finalmente no palácio (momento no qual o personagem passa aceitar que a vida é de fato um sonho e trata de alongar ao máximo a duração do seu sonhar, temendo voltar para torre como prisioneiro).

Como podemos ver, ambas as obras, Édipo-rei e La vida es sueño põem o leitor diante do dilema entre predestinação e livre arbítrio. Seria o destino um caminho já traçado pelos deuses, mutilando as paixões e a liberdade do homem? E quanto ao sonho e a esperança individual de cada um? O sonho é a cura do homem diante do medo da morte (sono eterno). Tecemos
nosso destino, tramamos a jornada da vida, cuja existência é única para cada um de nós, assim como Penélope: "[...] de dia, ia tecendo uma trama imensa: de noite, mandava acender as tochas e a desfazia [...]" ( ) Penélope tecia seu destino se resguardando dos pretendentes, fazendo todos esperarem pelo final de seu trabalho, quando na verdade ela já tinha um pretendente para toda a vida: Odisseu. A missão de Penélope era ganhar tempo enquanto seu homem não voltava. Este tempo era alongado pelo tecer e destecer que realizava diariamente, constituindo um intervalo de tempo (sonho - "trama imensa") em meio a realidade da vida. De outra maneira, Segismundo tecia também uma "trama" para enganar o destino que lhe havia sido traçado. Alongando o tempo do sonhar, o príncipe conseguia se desviar da realidade atroz de ser eternamente prisioneiro: seja prisioneiro de corpo (caso se rebelasse contra todos e voltasse para a torre/prisão), seja prisioneiro de alma (se aceitasse e concordasse, sem questionar, o fato de ter sido desprezado pelo pai, estaria abdicando da autenticidade de seus instintos e paixões).

Assim sendo, Segismundo opta por "sonhar" como sendo esta a única alternativa para se desvencilhar da realidade que o encurrala de todas as maneiras. O sonho, portanto, pode ser visto nesta obra de Calderón como uma opção existencial, na verdade, única alternativa que desvia o homem da tragédia da vida, contra a qual lutamos diariamente.

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[1] Mestre em Literatura Comparada (UFRN); Graduada em Letras com
habilitação em Língua Inglesa e literaturas (UFRN) e Professora da
Faculdade de Natal (FAL). E-mail: rosanneba@yahoo.com.br.